Quando uma mulher experimenta a massagem ayurvédica…

Para aqueles que acompanham o blog devem se lembrar de um post entitulado “Interessados em uma massagem indiana?” onde meu amigo Ricardo conta sua “traumática” experiência de ser massageado de forma profunda por um indiano em Kerala, no sul da Índia. Além da visão masculina, engraçadíssima e tipicamente brasileira (“Eu hein, um homem fazendo massagem em mim?”) a respeito da massagem ayurvédica queria a opinião mais séria de uma mulher, e que por sinal também é brasileira.

A Priscila, que agora nos abandonou e voltou para a bela Paris, cumpriu sua promessa e me mandou esse texto inspirado onde compartilha comigo e com vocês a experiência ayurvédica dela no sul da Índia. As fotos sensacionais que estão neste post também são todas “doadas” pela Pri.

Esse post não estaria no meu blog se o Ricardo (o meninão da massagem) não tivesse me apresentado à Priscila que acabou virando uma grande amiga. Não só uma amiga da Índia… mas uma amiga pra vida.

Sem mais… Agora passo a bola pra Priscila que acaba de entrar na passarela de corpo e alma…

 

A pedido da querida Mari, seguem algumas notas sobre a minha experiência ayurvédica no Kerala.

Ao final de 5 meses de trabalho em Nova Déli, e uma ou outra viagem de final de semana pela Índia, incluindo a volta no tempo medieval de Varanasi, no espaço colonial de Kolkata e na impaciente Bollywood de Mumbai, resolvi descer para o Kerala para desacelerar a mente e energizar o corpo.

Essa última viagem também conclui uma missão: completar o ciclo indiano de passagem da menina que chegou em Déli para a mulher que me tornei. Nesta etapa, descobri um sorriso mais fatal e, simultaneamente, perdi boa parte da comédia. Diferente da Mari, que ainda tem muuuuito tempo antes de se entregar ao sistema indiano de hearthunters, eu só tenho 2 anos. Ela ainda pode se dar ao luxo de saltitar pelas “calçadas” de Gurgaon, passar uma tarde inteira de domingo entre as amigas no Khan Market ou tropeçar nos braceletes das vendedoras de Connaught Place, toda distraída, ignorando chamadas no celular e parando para pensar… Afinal ainda são 4 ou 5 anos para ela desfrutar do poder de escolha: será que visto sorriso tímido comedido movimentando sutilmente os cílios devidamente aveludados lancôme oscilation?  – “pode ser que você seja um paquera” – que pode mudar em segundos para o gigante sorriso comédia de olhos bem abertos impecavelmente enquadrados pelas sobrancelhas threading, a prova de qualquer dúvida – “quero ser apenas seu amigo”. Comigo, agora, o assunto é sério e só tenho tempo para um sorriso. Por isso, a tentativa de no tom mais serial, daqui em diante, ser mais informativa. Deixo a comédia com a Mari e com o Rica (aquele do “meninão” que é um eterno meninão). Aliás, o que anda aprontando o Rica, Mari? Pede pra contar a novela dele no blog! Assim mato um pouco a saudade também.

Enfim…

Kerala é estado do sul(doeste) da Índia, conhecido pela tranqüilidade e simplicidade de seu povo e pela natureza deslumbrante. O povo é muito simples, mas longe de ser miserável. Parecem bem cuidados e bastante educados. De fato, a taxa de alfabetização alcança mais de 90% da pop do Kerala. Por onde andei, não vi ninguém pedindo dinheiro na rua. Também não vi nenhum indiano cuspindo pra fora dos riquixás (o verbo que melhor descreve é escarrando, mas é tão feio falar quanto presenciar o que fazem) ou fazendo xixi na rua, cenas típicas da vida urbana de Delhi. Além das praias, a região é marcada pelos incríveis backwaters (canais). Os rios correm paralelos ao mar, separados por incontáveis kilômetros de coqueiros.

Backwaters by Priscila

Pra quem se encantou com o verde de Maceió ou com a praia pernambucana dos Carneiros, Kerala é o verdadeiro paraíso. Lugar ideal para desacelerar a mente. Fora a beleza estética, é principalmente pelo clima e biodiversidade que no Kerala melhor se desenvolveu a chamada medicina ayurvédica. É por causa do clima quente – próximo ao equador – e úmido (são dois períodos de monções) que lá se encontram as diversas ervas e plantas necessárias para os medicamentos e o calor que facilita os tratamentos.

Lotus flower by Priscila

Com base na idéia de que a saúde perfeita se encontra no equilíbrio dos doshas (o que a Mari já explicou), um dos tratamentos mais conhecidos na medicina ayurvédica é o Panchakarma. Sua sistematização data mais de 1200 anos AC. Não é um tratamento único para curar doença determinada. Na verdade, trata-se de um ciclo de cinco terapias de purificação conforme necessárias (e que pode incluir estímulos à excreção, vômito e sangramento) com o objetivo de eliminar toxinas que desequilibram o estado de saúde corporal. Cuida do bem estar e previne doenças principalmente com foco no bom funcionamento do aparelho digestivo. Dependendo do tempo e intensidade das terapias elimina-se toxinas de anos e anos acumulados. Conseqüentemente, promete melhorar a pele, cabelo, brilho dos olhos, disposição. Como todo tratamento ayurvédico, sugere-se complementar com a prática de yoga. Não se trata de cuidar da saúde mental, encontrada no equilíbrio dos gunas (componentes essenciais ou energias vitais da mente), cuja perfeição jamais se realiza por meros mortais, mas que pode ser melhorada com ajuda do vegetarianismo, oração e meditação.

O tempo mínimo para um ciclo completo de Panchakarma é de 21 dias. Como eu só tinha 6 dias num hospital e centro ayurvédico do Kerala (um tanto diferente do Rica e seu “meninão” que foram passar um feriado num hotel/SPA), fui lá descobrir o povo do Kerala, aproveitar uma alimentação mais simples e leve (longe dos currys amanteigados e encremados do Norte), porém não menos picantes (devo ter ingerido 5kg de folha de curry e pimenta do reino misturados no dahl de cada dia, cada hora, café, almoço e jantar), fazer um pouco de yoga e experimentar uns tratamentos pré-panchakarma. Aqui entram as massagens ayurvédicas.

São basicamente dois tipos de tratamentos pré-panchakarma, cujo principal objetivo é a aplicação de medicamentos herbais misturados aos óleos que facilitam sua absorção, entrando para depois sair do nosso organismo como se estivessem tirando as toxinas “com a mão”. De um lado, os pacientes ingerem medicamentos misturados ao ghee (extrato de manteiga, na forma líquida, que ativa e maximiza a absorção dos medicamentos pelos tecidos internos). Por outro lado, pela parte externa do corpo, são aplicados medicamentos misturados na maior parte das vezes aos óleos. Essas aplicações são feitas com a ajuda das massagens (de diferentes formas e praticamente em quase todas as partes do corpo) e também do shirodhara (fluxo contínuo de óleo ou outros líquidos derramados em cima do terceiro olho).

Dito isso, o óleo, de fato, é praticamente o protagonista de qualquer tratamento ayurvédico. Tanto é que merece uma cama própria, feita em formato específico para não escorrer óleo no chão e de madeira especial para facilitar a higienização. Ao mesmo tempo é uma cama bem dura. Mais confortável do que dormir no chão, pior do que dormir em rede, mas muito pouco confortável para quem está acostumado a dormir em colchão de molas ensacadas e forrado com pillow top de viscoelástico.

Massagem ayurvedica by Priscila

Fiz massagens de vários tipos. A que servia mais para fortalecer o corpo do que relaxar, além de ser feita com muito óleo, cobriu meu corpo de uma pasta/lama rosa, que saia e era espalhada por trouxinhas de pano, que continham um preparado de um arroz especial misturado e aquecido com leite. A sensação inicial era muito boa. Depois senti muito frio, o que explicou o que veio em seguida: o banho mais escaldante que já tomei na vida.

A maioria das massagens é feita em dupla de terapeutas, às vezes trios, para aumentar a intensidade da aplicação e da circulação, melhorando a absorção dos medicamentos, que se completa com a transpiração. Para essa última, nos colocam na tal “mini-sauna”, sentados dentro de um bloco de madeira que está ligado literalmente a uma panela de pressão. Ali, fica-se, pelo tempo necessário dependendo de cada um, apenas com a cabeça para fora, coberta com um pozinho alaranjado que tem por função não deixar a cabeça ferver.

Depois de todas as massagens, óleos, arroz, lama, água quente, vapor, pozinhos coloridos, esfoliantes, chegava uma sensação interminável de cansaço. Muito cansaço. Mais cansaço. Mas como ficar tão cansada de não fazer nada, ou ainda, de receber massagens e tratamentos “relaxantes”? Na verdade o corpo trabalha silenciosamente recebendo diversos estímulos para eliminar as toxinas … A sensação de relaxamento e disposição mais constantes só apareceu uma semana depois dos tratamentos.

Nos centros ou spas mais sérios, os terapeutas são sempre do mesmo do sexo do paciente/cliente. Daí o desespero do Rica. Se para ele o maior pesadelo foi sentir o “meninão” escaldado no óleo morno que escorria na medida em que um indiano esfregava o corpo dele, pra mim, não fosse certa previsão e preparação para o caos, o pesadelo teria sido passar uma semana inteira com óleo no cabelo cheirando amendoim queimado, justamente por causa do shirodhara com o qual o Rica tanto relaxou que até apagou. Pago 10.000 lacks pra ver o Rica negando uma massagem ayurvédica feita pela Juliana Paes e mantendo firme a posição de experiência única (na vida) como ele diz. Enfim, eu faria tudo de novo e ainda por mais tempo, mas não recomendaria tratamentos ayurvédicos principalmente como o shirodhara durante um final de semana de baladas e outros compromissos sociais. Demorei pelo menos uma semana para ter o cabelo de volta ao normal e abandonei umas 4 peças de roupa por lá mesmo para não correr o risco de perder a mala inteira cheirando óleo queimado.            

Pri e Ricardo, vocês são uns amores! Obrigada por compartilhar suas percepções e ainda me autorizarem a publicar no blog! São por essas e outras coisas que percebo como tenho sorte na minha vida….sorte de ter amigos assim como vocês que fizeram e que fazem com que minha experiência na Índia seja algo simplesmente único e especial.

E sinto que meu momento ayurvédico está prestes a acontecer…

2 comentários sobre “Quando uma mulher experimenta a massagem ayurvédica…

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