Cenas cotidianas do mundo corporativo na Índia

Já tinha ouvido falar que o clima de competição na Índia era muito grande. Não é difícil de imaginar o porquê disso. Com milhares de engenheiros, administradores e outros graduados se formando a cada ano e com uma oferta de trabalho que não é proporcional ao numero de pessoas que se formam, é de se imaginar que a competição no mercado de trabalho seja algo mais do que esperado. Rupees

E esse clima competitivo começa bem antes, já nas salas de aula dos colégios e depois nas universidades….imagino que 95% dos alunos queiram participar da aula para mostrar ao professor e aos colegas que são bons e que têm potencial…eles parecem querer desesperadamente sobressair da multidão.

Estava conversando sobre este tema com um colega indiano que trabalha aqui comigo na Índia e que também trabalhou no escritório do Chile. Ele me pediu para que comparasse o clima corporativo no Chile e na Índia. Comentei que a falta de flexibilidade e a burocracia exagerada eram os fatores que mais me incomodavam aqui na Índia.

Outro fato que me impressionou também foi ver que os indianos são muito mais submissos. Eles conseguem engolir muito mais sapo que nós latinos. Nunca reclamam quando tem que trabalhar todos os dias até mais tarde, trabalhar nos finais de semana mesmo sem ganhar hora extra! No mundo corporativo todos e cada um de nós somos facilmente substituíveis. Sempre vai ter alguém que consegue fazer exatamente o que você faz aceitando ganhar um salário menor. Mas na Índia sinto que essa sensação de ser altamente substituível é muito mais forte que na maioria dos outros países. Enquanto que no Brasil existem 1000 pessoas que poderiam ocupar o seu cargo, na Índia, sem dúvida alguma esse número poderia ser elevado a quinta. Depois a gente começa entender o porquê da lei do matar ou morrer ser tão forte por aqui.

Comecei a perceber bem isso em uma sessão de treinamento que participei na Empresa…..o orador no caso, foi tão bombardeado de perguntas que chegou a dar pena. Mas não era o tipo de pergunta que você faz quando espera uma resposta e sim aquele tipo de pergunta feita só para testar o quanto aquela pessoa não dominava do assunto em questão…porque na verdade aqueles que perguntavam queriam mostrar que aquela pessoa não tinha tanto conhecimento e que na verdade tinham um maior domínio do assunto…..juro que depois de tantos tomates fictícios na cara da oradora, só faltou ela sair dali chorando.

São vários fatos que vivenciei nestes últimos 3 meses trabalhando na Índia que me fazem pensar que o ambiente de trabalho aqui é muito mais pesado e cruel que na America Latina. Aqui me dá impressão que o seu colega fica feliz quando te vê por baixo…por não saber algo que ele sabe….

Outra coisa que me marcou também é que eles fazem questão de anunciar tudo na empresa…..se o cara vai casar, se o cara vai fazer um MBA, se o cara vai ser promovido eles chamam o andar inteiro pra fazer o grande anuncio e por aí vai….Pra mim isso seria mais do que normal se este anuncio fosse feito para sua equipe, para seus colegas próximos e tal..porém aqui não….ELES TEM QUE ANUNCIAR PARA TODOS E VOCE AINDA TEM QUE FAZER UM DISCURSO E PROVAVELMENTE AINDA PAGAR DOCES E UM JANTAR PRA AREA INTEIRA PORQUE AFINAL DE CONTAS ALGUMA COISA BOA ACONTECEU COM VOCÊ…

Mas o que na verdade me impressionou e o que me fez ter vontade de escrever sobre este assunto foi que, com todo este clima de crise mundial…..as demissões aqui na empresa tem acontecido com maior freqüência….

Eu fui convidada para a despedida deste indiano que não conhecia, mas que trabalhava no meu departamento. Quando recebi o e-mail a respeito da despedida dele na sala de treinamento pensei que ele iria sair da empresa pra fazer um MBA, ou que conseguiu outro emprego, ou que iria viajar, ou tirar um ano sabático para viajar o mundo…sei lá… Mas pela cara triste e de choro do indiano, percebi que o motivo da despedida não era algo bom e depois acabei descobrindo que o evento de despedida era para “celebrar” nada mais nada menos que a demissão dele.

E a sala tava lotada de pessoas, a maioria (inclusive eu) nunca tinha trabalhado com ele e nem sequer sabia o nome do cara. Ou seja, uma coisa muito impessoal principalmente num momento difícil como aquele. Quando alguns colegas do demitido começaram a fazer discursos, foi tudo tão superficial e vazio que me senti mal por ele. As poucas palavras que falaram foi pra tirar com a cara dele ou pra dar algum feedback negativo. Foi uma situação totalmente humilhante para ele, e totalmente desnecessária. Na minha opinião, um feedback profissional deve ser dado somente para você entre quatro paredes sem que colegas que você nunca trabalhou na vida fiquem sabendo do que fez ou deixou de fazer.  Isso me fez pensar mais de uma vez que de uma forma geral os indianos tem certas dificuldades quando se trata de de habilidades sociais.

Diante daquela situação, e depois daqueles comentários que mais pareciam beliscões em uma bunda queimada de sol…..resolvi deixar umas palavrinhas de conforto pra aquele indiano de 21 anos, que poderia ter trabalhado comigo, e que poderia ter se tornado meu amigo…nunca se sabe…

“Na verdade quero só falar umas palavrinhas para você…sei que não te conheço muito, ou melhor, na verdade nunca nos falamos…mas o que eu queria te dizer é que não importa quais são as razoes para a sua saída aqui da empresa, só queria te dizer que mudanças podem ser muito boas na vida, seja mudança de emprego, de país, de profissão…..é só quando você passa por uma mudança desse tipo que tem tempo pra pensar em tudo que fez no passado e o que espera fazer no futuro….Espero que seu futuro seja ótimo, não importa quais forem suas escolhas, te desejo muita sorte na sua vida”.

E foi assim que o evento da demissão terminou. As pessoas foram embora e quase ninguém o cumprimentou ou deu um abraço de despedida. Foi algo simplesmente frio.

Todos voltaram para suas mesas de trabalho, inclusive eu e o indiano que foi despedido. Ele desligou o computador pegou as suas malas e se foi. Ele foi embora sem olhar pra trás e sem dizer adeus.

Gurgaon

Gurgaon

8 comentários sobre “Cenas cotidianas do mundo corporativo na Índia

  1. Mari, mto legal o texto… estou curtindo q vc está explorando esse aspecto de diferenças culturais! O mundo corporativo é bem difícil mesmo e nem sempre encontramos pessoas que valem a pena acordar e rever todos os dias, nem q seja para jogar aquela conversa fora na hora do almoço!
    Fiquei super orgulhosa pelo o q vc fez com o moço demitido… de conversar com ele despretenciosamente e dar palavras de apoio! Mto legal mesmo! bjs

  2. olá!
    Estive de férias 15 dias na India e gostei muito! Achei as pessoas mais simpáticas e humildes que em Portugal!
    Gostava de vir a ter uma experiência profissional na India, mas pelo que li não deve ser fácil! além do mais o meu inglês é mau e por isso é dificil conseguir que leiam o meu curriculum. A minha área é engenharia civil e nem faço ideia se existe mercado para mim aí, ou se também há crise como na europa!

    • Ola Anita, tudo bom? Quer dizer entao que vc é de Portugal? Qie bacana! Conheci uma amiga portuguesa bem bacana que trabalhava comigo no escritorio da India. Com certeza, a maioria da populacao indiana é de fato bem humilde. Porem, a classe media alta é bem esnobe de maneira geral, até porque o sistema de castas mesmo que proibido hoje em dia, acabou dividindo muito mais a sociedade, gerando uma desigualdade social gritante! Se voce tiver interesse em trabalhar na India posso te passar alguns contatos de amigos que ainda moram e trabalham por la! Abraco!

  3. Gostei muito de saber se comporta o indiano no trabalho. Fiz um amigo indiano pelo orkut, meu inglês é fraco, mas consigo me corresponder, o problema maior é a diferença cultural. Você tem dicas de leituras, textos que falem como é a cultura e a sociedade de hoje? Meu amigo é de gurgaon. Obrigada.

    • Olá Rosangela, tudo bem?

      Li alguns livros a respeito da India que me ajudaram bastante a entender mais a respeito da cultura e sociedade (Shantaram e Tigre Branco sao excelentes alem de informativos). Vale a pena checar alguns blogs de brasileiros que vivem por lá e que vivenciam a cada dia as diferencas culturais na India. Tenho um casal de amigos que vive em Gurgaon e que escreve um Blog super interessante: http://www.shivaemgurgaon.wordpress.com Outro blog bem tradicional é o India Gestao, escrito por uma brasileira que vive em Delhi ha muitos anos e é casada com um indiano.

      Leutura e conversa com brasileiros que veveram por lá definitivamente ajuda! Porem, cada um vive uma experiencia distinta e assimilia coisas com uma perspectiva diferente. O jeito é entrar no palco, improvisar e se render a Indredible India!

      Um abraco, qualquer coisa que precisar entre em contato!

  4. Nossa…fiquei chocada!! Nunca trabalhei com indianos, mas vou perguntar mais detalhes para os poucos que conheçp aqui. Sera que esse indiano demitido te escutou? e como foi a interpretação dos outros com o seu comentario? a humilhação deve ter outra conotação para eles.
    Vivo nos EUA já tem 3 anos e todos os dias aqui é um batalha sem fim. O mundo coorporativo me parece sem limites e mais cruel do que se imagina. Já passei por várias humilhaçoes, como:
    – o meu chefe me demitiu porque o outro funcionario simplesmente me chamou para dormir com ele . Simplesmente sexual harassment como eles chamam aqui, mas como todos eram latinos, sobrou para mim. Muito gata pro pedaço.aff
    – Os latinos, principalmente colombianos, gritão uns com os outros, numa falta de profissionalismo que não dá para entender. E ainda os palavrões.
    – Os gringos são mais individualistas do que nunca. Trabalhar em equipe parece uma competição de trabalho individuais.
    – U.S.A. país a falsa “liberdade”, burocracia e leis para tudo. E se não tiver uma regra definida, a criatividade flora, e vai tudo pro buraco, perdem o controle e não sabem como reagir.
    – Mediano é uma palavra fora do dicionario deles. Ou voce é o the best ou voce é o loser. Injustiça no meu ver.
    – Pensamento limitado e a longo prazer. Felicidade fica para amanhã. Trabalha-se de segunda a segunda e dorme pensando no trabalho. E ainda é chamado de preguiçoso se não for assim.
    Nessas horas sinto falta do Brasil…e meu caminho é a volta com certeza.

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