Uma cagada que deu certo (literalmente!)

Interessada no segmento de papel artesenal indiano e ecológico (eco-friendly handmade paper), acabei descobrindo um tipo de papel feito nada mais nada menos que cocô de elefante. ECA! Eu sei que essa deve ser a primeira coisa que passou pela cabeça de vocês. Pelo menos foi isso o que aconteceu comigo quando ouvi essa estória de papel reciclado de cocô de elefante (elephant poo paper) pela primeira vez.

Curiosa e querendo ver de perto esse papel, fui visitar o escritório comercial em Delhi. Fui atendida pela dona do projeto, uma indiana pra lá de interessante e com um senso de humor afinado. Bota humor nisso! Não é a toa que ela realmente conseguiu montar um negócio rentável trabalhando com produtos reciclados de papel de elefante: cadernos, agendas, sacolas álbuns de fotografia , cartões e muitas outras cositas mas. Tudo com um design muito bacana, diferente e acredite se quiser, os produtos são super bonitinhos! E o melhor de tudo é que não fedem a cocô não! Cá entre nós, a primeira coisa que fiz ao ver o caderno foi dar uma cheiradinha básica para ver o que acontencia mas me surpreendi porque o papel não tinha cheiro nenhum!!!

Mas afinal, porque papel de cocô de elefante? Na verdade este surgiu como uma alternativa mais do que ecológica para diminuir o impacto ambiental já que propõe uma opção de produzir papel sem a utilização do corte de árvores para a fabricação de papéis. Para se ter uma idéia, os elefantes digerem apenas 60% dos 130 a 270 quilos de comida que se alimentam diariamente.E como são 100% vegetarianos, eliminam cerca de 100 quilos de cocô rico em fibras vegetais. Pura celulose!

Após a conversa altamente proveitosa com a dona, me animei em conhecer o centro de produção em um vilarejo na cidade de Sanganer, bem perto de Jaipur e foi lá que a aventura realmente começou. Fui recebida na estação de trem pelo produtor e idealizador da idéia elefantesca.

Mal me apresentei para o fornecedor e já tive que me sentar na garupa da motocicleta dele. Eu, que já não sou lá muito fã de moto nem no Brasil (posso contar nos dedos as vezes que andei de moto na vida), me vi naquela situação, sentando na garupa de um indiano desconhecido que me levaria naquelas ruas sempre em péssimas condições, e sem quaisquer regras de trânsito, ou seja, adrenalina pura. Porque nenhuma visita a um potencial fornecedor na Índia pode fluir de uma maneira mais convencional?

Enfim, mais ou menos 40 minutos depois cheguei ao centro de produção, onde também situava-se a casa dele. Fui extremamente bem recebida pela família inteira que me tratou como hóspede de honra. Era uma casa muito simples e pequena. A casa basicamente era composta de dois quartos multifuncionais que ora funcionavam como cozinha, ora como quarto, ou até mesmo sala de jantar e escritório, dependendo da necessidade do momento. O banheiro turco (aqueles com buraco no chão) ficava fora da casa, em um cubículo de madeira no quintal. Apesar de muito simples, tudo era incrivelmente limpo.

O produtor, muito orgulhoso da sua idéia de elefante, me mostrou todas as matérias em revista que já haviam publicado a respeito do negócio criado por ele. O interessante foi saber que ninguém acreditava na idéia dele no início. A família o considerava louco de pedra e ele teve que batalhar muito e ainda batalha pra viver disso. Na Índia e creio que em nenhum outro lugar, nada é fácil para aqueles que não tiveram a sorte de nascer em uma família privilegiada. Depois de muito esforço e com o suporte financeiro e mercadológico de uma mulher de negócios em Delhi, o papel virou o meio de subsistência de toda a família e todos atualmente trabalham na produção. Realmente foi uma cagada que deu certo.

Durante o almoço tipicamente indiano, regado a dhal e chapati (haja chapati, me fizeram comer quase dez!!!), tive uma conversa super gostosa com a família. O produtor, com o seu inglês esforçado, serviu como o meio de campo, possibilitando a minha comunicação com a família. Respondi diversas perguntas a respeito do Brasil e a mãe ficou espantada quando respondi que no Brasil não se comia chapati (um tipo de pão indiano). Na cabeça deles, aquilo parecia inconcebível já que comem chapati em todas as refeições.

Me sentia empanturrada depois daquela refeição onde me alimentei quase tão bem quanto um elefante! Queria descansar um pouquinho mas o tempo era curto. Ainda tínhamos que sair de moto (de novo não!) em Jaipur, para que eu pudesse conhecer os locais onde a “matéria-prima” do papel era coletada. Conheci alguns dos elefantes e tirei algumas fotos pra documentar todo o processo. A maior parte da matéria-prima é coletada no caminho para o passeio de Amber Fort, onde os elefantes sobem e descem todos os dias. O cocô de elefante é então coletado, lavado, esterelizado e misturado a restos de pano (sobras da industria têxtil). O papel é então processado artesanalmente (composto de mais ou menos 70% cocô e 30% de restos de pano). O papel é então seco e cortado em folhas para enfim virarem itens variados de papelaria.

Depois do longo passeio voltei a casa do fornecedor para tomar um último chai com a família antes de partir para uma visita a outro fornecedor em uma cidade perto de Ajmer. Me perguntaram se eu me interessava por jóias. Disse que achava legal. De repente a mãe me aparece com uma caixa de madeira que continha um colar e dois braceletes de ouro. Fizeram questão de me ver usando aquelas jóias que na verdade seriam usadas no casamento arranjado do fornecedor, evento que acontecerá em 2010. Ok. Até aí tudo bem. Acontece que a mãe e a irmã se empolgaram tanto com a idéia de me transformar em uma noiva indiana que ainda resolveram colocar um bindi e um lenço na minha cabeça. E lá estava eu, me sentindo a própria boneca daquelas duas indianas que se divertiam ao me ver com um look indiano. Me senti a própria menina do vilarejo, pronta para o casamento arranjado! Tive que ficar usando aqueles acessórios por quase uma hora porque simplesmente eles não deixam eu tirar os apetrechos do meu corpo! Ah e pra fechar com chave de ouro eles convidaram boa parte do vilarejo pra me ver daquele jeito, rsrsr!

E a reunião de negócios se finalizou quando o fornecedor me disse: “Mariana, se eu não estivesse prometido para outra mulher, eu te pediria em casamento agora”. Indianos normalmente não conseguem separar as coisas. Você simplesmente tem que aprender a ter jogo de cintura pra sair dessas numa boa, sem encanação e ainda com um sorriso no rosto, afinal é assim que as coisas funcionam por aqui.

É lógico que aquela família linda, simples e mais do que hospitaleira não deixou que eu pagasse por nada durante todo o dia já que eu era uma hóspede de honra da casa. Saí daquela casa ainda com mais vontade de fazer negócios com eles.

Acho que esta estória de papel de elefante é uma alternativa pra lá de interessante e ecológica. É uma “cagada” (literalmente) com alto potencial de também dar certo no Brasil.

“Elephant Poo Paper…Made using only the finest dung available in India!”

3 comentários sobre “Uma cagada que deu certo (literalmente!)

  1. Maricota, essa historia so podia ter acontecido com voce!!!
    Excelente post!
    Lembrei de voce la no Sri Lanka! Comprei um bloquinho de papel super bonitinho e qdo olhei para ver se era papel reciclado (ando bem ecologicamente correta) adivinha: Elephant Dung Paper. Fabricado la no Sri Lanka mesmo. Essa ideia de reciclar a cagada ta se espalhando mesmo!
    Beijos!!!

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